A esperança é um estado incondicional

 

 

São muitas as vezes em que nossos sonhos individuais ou coletivos foram esmagados pela realidade. Nesses momentos, a chama da esperança tende a diminuir, até quase se apagar. Qual é o limite da esperança? O quanto suportamos cultiva-la, diante das adversidades?

Para sustentar a esperança, é preciso diferenciá-la de expectativa. A expectativa de que nosso candidato ganhe as eleições, quando não cumprida, gera frustração que, por sua vez, pode levar à raiva destrutiva – que, então, pode se expressar de forma ativa (vingança, retaliação) ou passiva (desistência, apatia). A expectativa está baseada numa premissa interna de que o mundo ou o outro deveria responder de acordo com meus desejos e valores e, se isso não acontece, nos sentimos traídos.

A esperança de que nosso candidato ganhe as eleições, entretanto, surge não do desejo de que a realidade responda a nossos desejos, mas, sim, de um desejo de amar a realidade. Por amá-la como é, queremos que ela possa ser o melhor de si mesma. A energia está direcionada para o “real”, e não para “si mesmo”. Se a realidade está ferida, desejamos que se cure. Se ela está dura, desejamos que se amacie. Se está iludida, desejamos que acorde. Se está violenta, desejamos que se torne doce e empática. Se vai bem, desejamos que vá melhor ainda.

Seria loucura um médico ter a expectativa de que um paciente grave se cure, simplesmente porque ele assim o quer. Seja por vaidade (querer ser o “curador” do outro), por projeção (não querer ver sua própria fragilidade refletida no outro), ou qualquer outro motivo. Mas o médico pode amar o seu paciente, de modo que ele alcance o melhor possível em seu estado – que pode ir desde a cura até uma morte mais digna. Também seríamos loucos de esperar que a realidade seja o que queremos, mas podemos cuidá-la a partir de onde está – sendo que, nesse caso, não existem médico e paciente separados: somos ambos.

Esperança é um estado incondicional. Podemos ter a esperança de que nosso candidato ganhe as eleições, e lutar com todas as forças e meios para isso. Mas se ele não ganha, podemos ter a esperança de ser resistência e existência dignas, para que consigamos transformar a consciência coletiva e mudar o cenário político até as próximas eleições. Se isso não acontecer, podemos ter a esperança de proteger e cuidar de nossas crianças para que elas façam a mudança na próxima geração. E se isso não for possível, podemos ensinar essas crianças a passar o bastão para frente, para que ele chegue até a geração futura que, enfim, estabelecerá um mundo justo e equânime para todos.

A esperança não é fácil, porque ela é o estado de consciência mais macio, que surge diante das realidades mais duras. Ela é a beleza que emerge onde há horror. E quando somos tomados pela dureza e pelo horror, nós mesmos nos tornamos descrentes e até nos irritamos e rejeitamos o que é macio e belo. A esperança, contudo, é persistente, pois é a única que fica quando nada mais de luminoso nos resta. É a primeira a ressuscitar, quando todo o resto já morreu. A esperança é empática, porque é a única que nos acompanha até onde for, mesmo ao mais tenebroso dos infernos, enquanto outros estados de consciência vão ficando pelo caminho, à medida que mergulhamos no terror.

Deixemos que nossa esperança seja incondicional. Podemos ter expectativas, e sentir-nos frustrados quando elas não se cumprem. Mas permitamos que a esperança seja o guia. Que ela viva para além das expectativas.

É a esperança que sopra em nossos ouvidos: enquanto ferir a existência de alguém, seremos resistência.

Não sabemos quanto tempo durará esse “enquanto”. Mas seguiremos em frente, pois a nossa esperança nunca termina. E quando acaba, volta a nascer. A esperança é a Fênix que mora em nossos corações.

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